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Sanidade em Sistemas de Produção Animal, com Ênfase em Bovinos


Sanidade em Sistemas de Produção Animal, com Ênfase em Bovinos
 
 
 
Existe um consenso de que nos últimos 20 anos significativos progressos ocorreram no controle e erradicação das principais doenças dos animais que se mostram relevantes no aspecto econômico e de saúde pública. À medida que a situação sócio-econômica melhora em todos os países, cresce a demanda por produtos de origem animal isentos de patologias que possam afligir ao homem e com alto padrão de qualidade.
Os avanços científicos e técnicos, em todas as áreas do conhecimento, observados nas últimas décadas, contribuíram para o aumento dos índices de produção e produtividade dos animais, superiores aos prognósticos dos mais otimistas opositores de Malthus. Este fato aconteceu em todos os países, independente do estágio de desenvolvimento social e econômico, em face da globalização e principalmente no aumento de aves e suínos destinados à produção comercial. Inegavelmente os bovinos, suínos e aves são as espécies de exploração econômicas mais expressivas para a produção de alimentos destinados ao consumo humano.
A seleção genética procurando maximizar o potencial biológico, os progressos na nutrição, instalações e manejo viabilizaram produzir mais animais por área, exigindo dessa forma cuidados especiais com a sanidade. A prevenção, erradicação de doenças transmissíveis, controle rigoroso sobre os insumos veterinários utilizados na produção animal constituem um elenco de medidas essenciais para garantir níveis seguros e competitivos na produção de alimentos de origem animal. Os clássicos agentes infecciosos, vírus, bactérias, fungos, espiroquetas, protozoários e parasitas ainda estão presentes e são motivos de preocupação na exploração moderna dos animais, principalmente quando se aumenta, cada vez mais, a densidade animal por área.
Paises com uma população animal altamente concentrada possuem condições extremamente favoráveis para a propagação de agentes patogênicos, desencadeando epidemias de grande porte e longa duração. A febre aftosa e a tuberculose são bons exemplos dessa assertiva.
Outro aspecto a considerar é a transformação, em escala mundial, de um grande número de rebanhos pequenos em um número pequeno de propriedades com grandes rebanhos. A existência de propriedades com 10.000 a 100.000 bovinos de corte, de 200 a 2.000 vacas de leite, de 20.000 a 100.000 suínos e granjas com milhões de frangos de corte e aves de postura favorecem a manutenção de determinadas doenças transmissíveis, principalmente as respiratórias, digestivas e por contato direto.
O rebanho bovino brasileiro, formado em sua maior parte por animais de corte, é o segundo do mundo com cerca de 170 milhões de cabeças. Sua produtividade pode ser considerada baixa, pois o desfrute está em torno de 13%, o índice de natalidade de 55%, a idade média do primeiro parto é de 45 meses, o abate de 4 a 5 anos, o peso médio das carcaças de 222 Kg e a mortalidade até a idade adulta de 15% a 20%.
As mudanças na cadeia produtiva dos produtos de origem animal, com a implantação recente do conceito de cuidar da produção da granja à mesa do consumidor, sintetizam todos os cuidados e metodologias que se devem ter relação à segurança alimentar. E com o objetivo de melhorar a qualidade dos produtos ofertados à população e também aqueles destinados à exportação, seria importante que as prioridades fossem enfatizadas na garantia de boa disponibilidade e qualidade da alimentação animal durante todo o ano, aumento do potencial genético do rebanho e, finalmente, conduzir com seriedade e perseverança os programas de controle e erradicação das principais doenças infecciosas prevalentes no Brasil. Nessa linha, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento publicou em 2001 as diretrizes para o Programa Nacional de Controle e Erradicação da Brucelose e Tuberculose Bovina (PNCEBT).
A infecção por Brucella abortus em um rebanho geralmente ocorre através da compra de vacas prenhes infectadas. Essas fêmeas, caso sejam recém-infectadas, podem não apresentar título de anticorpos e, portanto, não serem identificadas nas provas sorológicas. Mas, no momento do aborto, as fêmeas infectadas eliminam grande quantidade de agentes nos produtos do aborto e na secreção vaginal pós-aborto. O contato direto com tais produtos ou com o ambiente contaminado por esses produtos é a principal via de infecção dos bovinos, além dessa via, a brucelose também pode ser transmitida pelo sêmen. A Brucella pode sobreviver em cadáveres, tecidos contaminados e material orgânico por até dois anos, desde que não esteja diretamente exposta à luz solar e a altas temperaturas.
A brucelose é uma doença característica de animais sexualmente maduros e tem como principal sintoma o aborto com retenção de placenta, que ocorre após o sexto mês de gestação. A placenta geralmente apresenta necrose dos cotilédones, proliferação de tecido conjuntivo de granulação com fibrose e aderência dos cotilédones às carúnculas maternas. O feto abortado pode estar edematoso, com líquido sero-sanguinolento nas cavidades abdominal e torácica, e geralmente apresenta broncopneumonia. Nos machos, os principais sintomas são orquite (inflamação dos testículos) e/ou epididimite (inflamação do epidídimo).
O diagnóstico da brucelose é feito através da avaliação do desempenho reprodutivo do rebanho, associado a provas sorológicas. Entre os machos observa-se a incidência de orquite e epididimite. Segundo o Regulamento Técnico do PNCEBT, são recomendados os seguintes testes de triagem para brucelose: teste do antígeno acidificado tamponado (AAT) e anel do leite (“Ring Test”), sendo utilizado para o diagnóstico confirmatório os testes do 2-Mercaptoetanol (2-ME) e o de fixação de complemento (FC), sendo todos os testes utilizados para o monitoramento das fazendas certificadas como livres de brucelose.
No Brasil, o PNCEBT tem como objetivos: baixar a prevalência e a incidência de novos casos de brucelose (e de tuberculose) e criar um número significativo de propriedades certificadas que ofereçam ao consumidor produtos de baixo risco sanitário.
Para isso, o setor público vai atuar como agente certificador de propriedades livres de brucelose e de propriedades monitoradas, de adesão voluntária, dentro de um processo que envolve diretamente toda a cadeia produtiva. Serão também aplicadas medidas sanitárias compulsórias de eficácia comprovada, como a vacinação de bezerras contra a brucelose e o controle do trânsito de animais destinados à reprodução, objetivando baixar a prevalência e incidência de casos destas doenças até níveis compatíveis com ações sanitárias mais drásticas, que caracterizam um programa de erradicação. As fêmeas bovinas e bubalinas devem ser vacinadas entre 3 e 8 meses de idade, com amostra B19 de Brucella abortus. A vacinação de fêmeas adultas, que seria útil em regiões e propriedades com alta prevalência de infecção, só será permitida com imunógenos que não interfiram nos testes de diagnóstico, após aprovação e nas condições definidas pelo Ministério de Agricultura (caso da cepa RB51 de Brucella abortus).
A tuberculose bovina é uma zoonose de evolução crônica causada pelo Mycobacterium bovis, caracterizada pelo desenvolvimento progressivo de lesões nodulares, que podem se localizar em qualquer órgão. Apesar de associados à doença, a debilidade, emagrecimento progressivo e caquexia não são sintomas observados na maioria dos rebanhos infectados.
O termo tuberculose, segundo alguns autores, deve ser reservado para designação da doença causada pelo Micobacterium tuberculosis, M. bovis e M. avium, agentes etiológicos da tuberculose humana, bovina e aviária, respectivamente. M. bovis, patogênico para praticamente todos os mamíferos, inclusive o homem, apresenta características imunológicas muito afins com o bacilo humano.
Como a tuberculose bovina é uma doença crônica e não apresenta sinais clínicos alarmantes como aborto, febre alta, queda abrupta da produção, citando sintomas de doenças de caráter agudo, não motivou os médicos veterinários, criadores, autoridades sanitárias e consumidores de produtos de origem animal para o seu controle. No entanto, os prejuízos econômicos são altos se considerarmos a diminuição na produção de leite, carne, descarte precoce, eliminação de animais de alto valor zootécnico e condenação de carcaças no abate. Estima-se que os animais infectados percam de 10 a 25% de sua eficiência produtiva, além da perda de prestígio e credibilidade da unidade de criação.
A tuberculose bovina é também responsável por graves perdas econômicas em outros animais domésticos e de reconhecido perigo para a saúde humana, causando as mesmas formas clínicas e lesões patológicas que o M. tuberculosis. A prevalência da tuberculose humana de origem animal tem diminuído nos países onde a pasteurização é obrigatória ou onde existem campanhas de combate à enfermidade bovina.
É importante frisar que 90% das infecções pelo M. bovis em bovinos e bubalinos e outras espécies animais e também no ser humano se dá através da via respiratória, a partir da inalação de aerossóis contaminados pelo microorganismo. A difícil diferenciação entre a infecção pelo M. bovis e M. tuberculosis no homem só é possível através de isolamento, e a identificação do agente etiológico torna-se de suma importância, pois se estas pessoas residirem no meio rural e tiverem contato com animais, certamente teremos animais infectados.
O controle da tuberculose bovina deve ser realizado por intermédio dos exames em bovinos e bubalinos e também outros animais da propriedade, como cães e gatos, além do controle da saúde dos trabalhadores e a utilização de instalações com boa ventilação e com exposição direta à luz solar. A higienização deve ser realizada com desinfetantes apropriados, como o hipoclorito de sódio, fenol, formol cresol, etc. O consumidor deve somente adquirir carne de estabelecimentos que comercializem produtos sob inspeção federal, estadual ou municipal.
O sucesso na expansão da produção animal no Brasil só será eficiente a partir do momento em que sejam controladas ou mesmo erradicadas doenças como a febre aftosa, tuberculose e brucelose nos bovinos, e também outras patologias como a peste suína clássica nos suínos e Newcasttle nas aves, uma vez que tais doenças se mostram como barreiras sanitárias para a expansão e manutenção de mercados consumidores, sejam eles nacionais ou internacionais.

Luciana Gatto Brito, Médica Veterinária, D.Sc. (Embrapa Rondônia)


Embrapa Rondônia


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